O derradeiro beijo da mamãe


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Querido Ricardo,
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Acabei de ler seu texto "Saudade" e me emocionei. Como já lhe disse, também sou órfão de pai e mãe. Identifico-me absolutamente com tudo o que você escreveu ali... Ah, se eu pudesse dispor de um único dia no passado com meus velhos!
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Estou passando por uma fase doída, mas ao mesmo tempo maravilhosa. Lendo o que segue você entenderá o porquê disto.
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Veja você que me mudei há uma semana. Fui morar no apartamento que comprei com minha mãe há quase 20 anos, logo depois que meu pai morreu. Eu e mamãe compramos aquele imóvel com grande sacrifício. Vendemos quase tudo o que tínhamos para juntar o dinheiro necessário: a minha moto, as (poucas) jóias da mamãe, objetos de valor... Fizemos até um bazar de móveis. Reunimos os últimos trocados e, enfim, conseguimos.
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Mamãe se foi em junho de 2007, não resistiu a uma operação para pôr pontes de safena. O apartamento ficou fechado um tempão.
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Então, agora, decidido a me mudar para lá, promovi uma revolução: doei móveis; troquei parte do piso; passei látex e esmaltes sobre paredes, portas e armários, pus as cortinas para lavar; dedetizei todos os ambientes e contratei duas mulheres para uma faxina militar. Sem querer, descaracterizei tudo. Apaguei quase todas as marcas da minha mãe. Seu cheiro, que ainda persistia em alguns objetos, começou definitivamente a sumir.
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Muita coisa dela guardei como recordação, ou como utilidade. Suas roupas doei, assim como muitos objetos que não me serviriam. Porém, muita coisa tive que, desgraçadamente, jogar fora... Jogar fora! Veja isso! Eram coisas que ninguém poderia querer. Coisas que, por absoluta falta de espaço, eu não teria onde guardar. Oh, como dói na gente ter de fazer isto!
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Guardados em seus armários, achei coisas incríveis. Marcas da minha vida, da vida da nossa família; objetos que me acompanharam na infância, coisas do meu pai, objetos que estiveram sobre mesas e presos em paredes nas casas em que moramos. Enfim, remexer os pertences dos queridos que já partiram é uma tarefa hercúlea, melancólica, que alegra, surpreende, mas na maioria das vezes corta o coração da gente. Tudo-ao-mesmo-tempo-agora, como diziam os Titãs.
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Agora pasme, Ricardo, com o que vou contar a seguir: No meio daquela dolorida chafurdação no passado, dei com uma caixa velha de tênis Adidas. Reconheci a caixa quando a vi. Foi de um tênis meu, que tive lá pelos meus 15 anos. A mente da gente é incrivelmente fotográfica, não é mesmo? Mesmo após tantos anos.
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Estiquei o braço e a recolhi das profundezas do armário embutido. Estava embrulhada num saco plástico transparente, revestido daquela poeira oleosa que as coisas que ficam guardadas por anos adquirem. Livrei-a do saco seboso. Pareceu respirar, depois de tanto tempo enclausurada. Levantei a tampa. Por cima de uma série de coisas havia um papel. E não era um simples papel. Era uma carta. Uma carta da minha mãe dirigida a mim. Quase cai de costas quando li “Cesar, meu filho...”.
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Desci da escada, larguei o pano de pó no chão. Apoiei as costas na parede e senti meu corpo escorrer, até acabar junto ao rodapé, em meio à sujeira e à bagunça da reforma. Além do bilhete a caixa continha inúmeras coisas que me levaram a uma viagem de 30 anos no tempo. Eram coisas do meu pai: o relógio que ele usou por uma vida, e que estava em seu pulso quando ele infartou, sua caixinha de cartões, alguns chaveiros, uma caneta etc. A cartinha dizia assim:
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“Cesar, meu filho. Hoje é dia 15 de novembro de 1996, fui votar agora há pouco. Você não está, foi viajar. Então comecei a arrumar umas coisas, mas dentro desta caixa tem coisas pessoais do seu pai, que não tive coragem de jogar fora.
Faça você agora, por favor.
Obrigada,
beijos da mamãe.”
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Dona Diva deixou um bilhete para ser lido por seu filho em algum dia do futuro. Ao escrevê-lo, ela não poderia supor que morreria do coração onze anos depois, e que seu amado filho só acharia tal carta passados treze anos daquele dia... Mas sabia, sabiamente, que eu só mexeria nos recônditos do seu armário quando ela já tivesse morrido; e que, só então, acharia aquele bilhete.
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É complicado tentar explicar a sensação de ler aquilo, Ricardo. Saber que minha mãe escreveu a carta e a guardou, para que ela levasse a mim uma derradeira tarefa, e um derradeiro beijo seu, quando ela já não estivesse mais por aqui.
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Uma espécie de filme da minha vida se desenrolou rapidamente à minha frente, ao ler o bilhete e rever os queridos objetos do meu pai. Lembrei-me dos cheiros da minha infância, do barulho da panela de pressão fazendo a janta, que eu ouvia já da rua, ao chegar em casa; o murmúrio das vozes do seu Aloisio e da dona Diva, conversando pela casa baixinho, quando eu, bem menininho, já havia sido posto para dormir; do cheiro da dama da noite, que caia em abundância no chão do quintal da casa da minha avó Mi...
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Essa espécie de filme sonoro, em que ouvia a voz da minha mãe, que tanto me amou, me chamando para entrar pra casa; a voz do meu pai, que já não ouvia há vinte anos, me explicando coisas da vida, com toda a sua calma e bom-senso, foi como um surpreendente presente póstumo oferecido pela dona Diva a seu filho.
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Nele ouvi também a gritaria da turma aprontando farras, daqueles meninos da minha infância, muitos, que ainda hoje são meus amigos, mas que não são mais aqueles meninos de outrora... Veio-me a sensação do tempo que escoa, como no poema de João Cabral de Melo Neto:
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Não há guarda-chuva
contra o tempo
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
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A dor que sentimos, só quem perdeu seus dois queridos pode saber como é. Isso tudo e o fato de que segunda agora é o dia dos mortos, me fez recordar de outro poema, chamado "Dia de Finados", de Manuel Bandeira, que, para fechar este papo, dedico a você, amigo órfão, e à sua dor, que eu tão bem compreendo.
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Abraço,
Cesar.
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Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai.
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
Em verdade estou morto ali.
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Cesar Cruz
Novembro 2009
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